segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Os retiros de iniciação - 1ª parte

Intentando relacionar os valores culturais moçambicanos com o Sistema Preventivo, o BS dialogou com o Mestre Magaia, Mestre dos Retiros de Iniciação.
Uma das tarefas indicadas pelo Reitor Mor é o de ajudar  a inculturar o Sistema Preventivo.
Os Retiros de Iniciação dão-nos algumas dicas! Eis a primeira parte do artigo:


Pode-se apresentar?
Chamo-me  Cabral Zulo Magaia.  Nasci no dia 10 de Dezembro de 1932, em Marracuene. Sou ‘maronga’!

Quantos anos leva realizando este bonito serviço dos RETIROS DE INICIAÇÃO?
Em 1989 enquadrei-me como MADODA, conselheiro, desta equipa de iniciação.

Em que consiste o Retiro de Iniciação?
Melhor é explicar antes a origem dos Retiros de Iniciação: depois da nossa independência houve a orientação do partido que tirou a autoridade paterna na educação dos filhos. Então, os filhos começaram a não respeitar e não ouvir os seus pais. Os paroquianos da paróquia de N.S. do Amparo não estavam à vontade e, então, decidiram falar com o Padre Odilo, que era o pároco: «Senhor Padre, nós estamos muito mal com os nossos filhos e filhas. Já não nos ouvem. Já não nos obedecem. O Sr. Padre, pode-nos ajudar?»
De facto, o P. Odilo  conversou com o Padre Ezequiel sobre o que deviam fazer. Decidiram fazer algo, pois viram que a educação moral estava completamente a desaparecer. 
Os Padres Ezequiel e Odilo determinaram: vamos fazer Retiros de Iniciação. Isto, em 1988. Começou com um grupo de raparigas, num regime externo. As miúdas vinham de manhã, eram trazidas pelos pais. e pela noite regressavam às suas casas. A verdade é que, após de estar uma semana aqui, os pais notaram uma mudança nas suas filhas. A partir de aí, avançaram os Retiros de Iniciação.
No segundo grupo meteram também rapazes. Assim até chegar ao meu tempo.

Qual era a sua responsabilidade?
Eu iniciei como Madoda, que é um conselheiro. Temos as Massungukates, que é uma conselheira. Depois é que passei para Mestre.
O primeiro Mestre dos Retiros de Iniciação foi o Padre Ezequiel e o P. Odilo foi o formador.
Este ultimo teve de sair para Beira em 1994.Mas tiveram esta preocupação: Eles, valorizando os Retiros de Iniciação e segundo aquilo que os paroquianos e povos diziam em geral, que era muito bom, acharam que era necessário encontrar alguém para dar continuidade a este trabalho e não abandoná-lo de qualquer maneira.
Eu não era eu o único Madoda. Ninguém me chamou a atenção de que eu seria Mestre.
No ano 1994, no encerramento dum retiro, exactamente aqui no Amparo, chamaram-me no meio do altar e me investiram como Mestre dos Retiros de Iniciação. Parece que eu estava a ouvir mal, pois não cabia no meu coração. Eu não tenho nada para dar. Como vou ser Mestre dos Retiros de Iniciação. Mas o padre disse: Deus é que sabe. Você é que vai ser o Mestre. Chorei como uma criança. O peso daquela responsabilidade, reconhecendo as minhas limitações, sinceramente, o que é que vou fazer aqui?
Então, foi a partir deste ano, 1994, que passei a ser o Mestre dos Retiros de Iniciação, para dar continuidade a este trabalho importante para às famílias. Eu não sei se fiz bem ou fiz mal, o povo é que sabe. Mas, a verdade, é que alguma coisa consegui fazer.

Algumas características do Mestre dos Retiros de Iniciação
Nos Retiros de Iniciação não existem os  nomes das pessoas: só Mestre, não se diz Mestre Magaia, nem Padre Odilo, nem Padre Ezequiel, só  se diz, Formador, Madoda, Massungukate, Mestre. É em português, porque é a língua oficial, e não traduzimos à língua local. Se chama pelo serviço que a pessoa faz.
Segundo na nossa cultura, o rito de iniciação é tribal. Mas o Retiro de Iniciação na Igreja não é tribal. Porque se fosse tribal, só poderíamos ensinar aqui os usos e costumes do marongas. Mas já não é assim. Nós pegamos naquilo que é positivo para uma sociedade e a família, e ensinamos aos rapazes e às meninas. Daí que utilizemos só o português.
Os Retiros de Iniciação são diferentes dos retiros que fazemos na nossa Igreja Católica. Enquanto que um retiro da nossa paróquia, um catequista, um sacerdote, uma freira pode dar um retiro com 3, 30 ou 40 pessoas. Os Retiros de Iniciação já não podem ser assim. Porque é uma coordenação, é uma experiência adquirida não na faculdade, mas na experiência da vida de cada um, daquilo que cada um aprendeu dos seus pais, dos seus avós e daquilo que aumentou na caminhada dos Retiros de Iniciação. Daí que enquadra todas as idades. Os jovens que foram iniciados há muito tempo também têm uma tarefa importante. Daí aparecem os padrinhos e as madrinhas. Tem também Madrinha Mor e Padrinho Mor, que é a chefe das madrinhas e o chefe dos padrinhos.

Nestes Retiros de Iniciação temos elementos tradicionais da cultura e elementos cristãos?
O segredo do Retiros de Iniciação: temos como base a Sagrada Escritura. Depois vamos aos valores morais dos nossos antepassados. Eles são enquadrados na Sagrada Escritura. Durante o nosso trabalho utilizamos aquilo que os nossos antepassados tinham de bom e que a Igreja aceita como papel positivo. Temos muitas leituras da Sagrada Escritura que acompanham as nossas actividades no terreno.
(A segunda parte da entrevista continuará no próximo número do BS nº 55, Novembro-Dezembro)




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