Intentando
relacionar os valores culturais moçambicanos com o Sistema Preventivo, o BS
dialogou com o Mestre Magaia, Mestre dos Retiros de Iniciação.
Uma das tarefas
indicadas pelo Reitor Mor é o de ajudar
a inculturar o Sistema Preventivo.
Os Retiros de
Iniciação dão-nos algumas dicas! Eis a primeira parte do artigo:
Pode-se apresentar?
Chamo-me Cabral
Zulo Magaia. Nasci no dia 10 de Dezembro
de 1932, em Marracuene. Sou ‘maronga’!
Quantos anos leva realizando este bonito serviço dos
RETIROS DE INICIAÇÃO?
Em 1989 enquadrei-me como MADODA, conselheiro, desta
equipa de iniciação.
Em que consiste o Retiro de Iniciação?
Melhor é explicar antes a origem dos Retiros de
Iniciação: depois da nossa independência houve a orientação do partido que
tirou a autoridade paterna na educação dos filhos. Então, os filhos começaram a
não respeitar e não ouvir os seus pais. Os paroquianos da paróquia de N.S. do
Amparo não estavam à vontade e, então, decidiram falar com o Padre Odilo, que
era o pároco: «Senhor Padre, nós estamos muito mal com os nossos filhos e
filhas. Já não nos ouvem. Já não nos obedecem. O Sr. Padre, pode-nos ajudar?»
De facto, o P. Odilo
conversou com o Padre Ezequiel sobre o que deviam fazer. Decidiram fazer
algo, pois viram que a educação moral estava completamente a desaparecer.
Os Padres Ezequiel e Odilo determinaram: vamos fazer
Retiros de Iniciação. Isto, em 1988. Começou com um grupo de raparigas, num
regime externo. As miúdas vinham de manhã, eram trazidas pelos pais. e pela
noite regressavam às suas casas. A verdade é que, após de estar uma semana
aqui, os pais notaram uma mudança nas suas filhas. A partir de aí, avançaram os
Retiros de Iniciação.
No segundo grupo meteram também rapazes. Assim até chegar
ao meu tempo.
Qual era a sua responsabilidade?
Eu iniciei como Madoda, que é um conselheiro. Temos as
Massungukates, que é uma conselheira. Depois é que passei para Mestre.
O primeiro Mestre dos Retiros de Iniciação foi o Padre
Ezequiel e o P. Odilo foi o formador.
Este ultimo teve de sair para Beira em 1994.Mas tiveram
esta preocupação: Eles, valorizando os Retiros de Iniciação e segundo aquilo
que os paroquianos e povos diziam em geral, que era muito bom, acharam que era
necessário encontrar alguém para dar continuidade a este trabalho e não
abandoná-lo de qualquer maneira.
Eu não era eu o único Madoda. Ninguém me chamou a atenção
de que eu seria Mestre.
No ano 1994, no encerramento dum retiro, exactamente aqui
no Amparo, chamaram-me no meio do altar e me investiram como Mestre dos Retiros
de Iniciação. Parece que eu estava a ouvir mal, pois não cabia no meu coração.
Eu não tenho nada para dar. Como vou ser Mestre dos Retiros de Iniciação. Mas o
padre disse: Deus é que sabe. Você é que vai ser o Mestre. Chorei como uma
criança. O peso daquela responsabilidade, reconhecendo as minhas limitações,
sinceramente, o que é que vou fazer aqui?
Então, foi a partir deste ano, 1994, que passei a ser o
Mestre dos Retiros de Iniciação, para dar continuidade a este trabalho
importante para às famílias. Eu não sei se fiz bem ou fiz mal, o povo é que
sabe. Mas, a verdade, é que alguma coisa consegui fazer.
Algumas características do Mestre dos Retiros de
Iniciação
Nos Retiros de Iniciação não existem os nomes das pessoas: só Mestre, não se diz
Mestre Magaia, nem Padre Odilo, nem Padre Ezequiel, só se diz, Formador, Madoda, Massungukate, Mestre.
É em português, porque é a língua oficial, e não traduzimos à língua local. Se
chama pelo serviço que a pessoa faz.
Segundo na nossa cultura, o rito de iniciação é tribal.
Mas o Retiro de Iniciação na Igreja não é tribal. Porque se fosse tribal, só
poderíamos ensinar aqui os usos e costumes do marongas. Mas já não é assim. Nós
pegamos naquilo que é positivo para uma sociedade e a família, e ensinamos aos
rapazes e às meninas. Daí que utilizemos só o português.
Os Retiros de Iniciação são diferentes dos retiros que
fazemos na nossa Igreja Católica. Enquanto que um retiro da nossa paróquia, um
catequista, um sacerdote, uma freira pode dar um retiro com 3, 30 ou 40
pessoas. Os Retiros de Iniciação já não podem ser assim. Porque é uma
coordenação, é uma experiência adquirida não na faculdade, mas na experiência
da vida de cada um, daquilo que cada um aprendeu dos seus pais, dos seus avós e
daquilo que aumentou na caminhada dos Retiros de Iniciação. Daí que enquadra
todas as idades. Os jovens que foram iniciados há muito tempo também têm uma
tarefa importante. Daí aparecem os padrinhos e as madrinhas. Tem também
Madrinha Mor e Padrinho Mor, que é a chefe das madrinhas e o chefe dos
padrinhos.
Nestes Retiros de Iniciação temos elementos
tradicionais da cultura e elementos cristãos?
O segredo do Retiros de Iniciação: temos como base a
Sagrada Escritura. Depois vamos aos valores morais dos nossos antepassados.
Eles são enquadrados na Sagrada Escritura. Durante o nosso trabalho utilizamos
aquilo que os nossos antepassados tinham de bom e que a Igreja aceita como
papel positivo. Temos muitas leituras da Sagrada Escritura que acompanham as
nossas actividades no terreno.
(A segunda parte da entrevista continuará no próximo
número do BS nº 55, Novembro-Dezembro)

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